Automutilação na infância e adolescência: como lidar

Luiz Eduardo

A automutilação na infância e adolescência é um assunto importantíssimo que preocupa muitos pais, cuidadores e professores. Mas você sabe o que fazer e como lidar com essa situação?

Esse é um problema que pode afetar o bem-estar desses jovens ao redor do mundo todo, e deve ser falado para levantar a atenção dos pais sobre o tema! Por isso, a Eurekka preparou esse texto cheio de dados muito úteis para você que quer entender mais sobre isso.

Neste texto, vamos te explicar melhor as motivações da automutilação na infância e adolescência, qual o papel da internet nesse processo, como identificar quando alguém está se ferindo de maneira física e, o mais importante, como ajudar uma criança ou adolescente que se machuca de modo proposital.

O que causa a automutilação infantil?

Se você conhece alguma criança que você acha que está praticando automutilação, isso pode estar acontecendo por quatro motivos:

1. Ambiente mal pensado

A primeira causa é um ambiente mal pensado. Quando a gente está lidando com uma criança que se machucou, a primeira opção com a qual a gente precisa trabalhar é que ela não fez isso de por querer. Afinal, quando a gente é criança, a gente se atrapalha de modo mais fácil e acaba se ferindo por aí.

Portanto, antes de concluir que a criança fez isso de propósito, com a intenção de se machucar, você precisa olhar os locais que essa criança está indo visitar. E se perguntar se esses ambientes não estão perigosos demais para essa criança.

Por exemplo, olhe para sua casa e se pergunte: será que a minha casa foi construída de um jeito que é muito fácil tropeçar na quina de uma mesa ou se machucar com uma tesoura? Só depois que você consegue eliminar a hipótese de que a sua criança está se ferindo por acidente, você começa a pensar nesse ato como algo feito de propósito.

2. Dificuldade de lidar com emoções

A automutilação, tanto em crianças, quanto em adultos, pode ter a função de acalmar uma emoção muito forte do momento. A criança pode estar passando por uma crise de raiva, de tristeza ou de ansiedade e ela descobriu que machucar a si mesma tem um efeito calmante.

E, de fato, existem evidências científicas de que, quando você se corta, o seu corpo libera algumas substâncias que podem ser calmantes em alguns casos. Por isso que é muito importante observar quando a automutilação acontece. Ou seja, se ela acontece logo depois ou durante uma crise de raiva, tristeza ou ansiedade. Porque isso pode ser um sinal de que ela está servindo como forma de acalmar a criança.

3. Uma forma extrema de pedir atenção

A terceira causa possível é que a automutilação é uma forma extrema de pedir atenção, tanto em crianças, quanto em adultos. A automutilação pode ser um jeito de chamar atenção e pedir a ajuda das pessoas em volta, se a criança acha difícil de comunicar que precisa de ajuda, ou as mensagens que ela tenta passar são ignoradas.

Algumas pessoas podem usar o ato de se machucar como um jeito desesperado de receber alguma ajuda. Por esse motivo, observe na sua criança em que momentos a automutilação ocorre – se ela acontece logo após um período de tempo em que a criança não recebeu atenção ou ajuda, ela pode estar cumprindo essa função!

E aqui é muito importante fazer uma ressalva: o fato de que a criança usa esse ato para chamar atenção não quer dizer que você deve ignorá-la quando ela se machucar. Afinal, ignorá-la pode fazer com que ela tome atitudes ainda mais extremas do que a automutilação para receber a atenção.

Em vez disso, o que você precisa fazer é ser capaz de notar os pedidos de ajuda que ela fez antes de tomar essa atitude extrema e, então, ajudar ela antes disso acontecer.

4. Autismo

E a quarta causa da automutilação infantil é que o seu filho pode ter um possível diagnóstico de autismo. Como as crianças com autismo, no geral, têm uma dificuldade muito grande de se comunicar, é bem mais comum que elas usem a automutilação como uma forma de pedir ajuda.

O jeito como a criança autista usa a automutilação também tem a ver com as três causas que a gente acabou de abordar aqui, mas com as causas extras do diagnóstico de autismo.

Então, se você tem visto essas atitudes na sua criança, junto com muitas falhas de comunicação e socialização, consulte um psiquiatra um psicólogo para saber mais sobre o diagnóstico de autismo.

O que leva os adolescentes a cometerem a automutilação?

como sair da depressão automutilação

A automutilação na adolescência está ligada a diversos fatores. Porém, os principais são a frustração e a depressão.

No entanto, não são todos os adolescentes que, ao passarem por um quadro depressivo, vão recorrer à essa prática. Ainda assim, adolescentes que recorrem ao ato, muitas vezes se encontram em um quadro depressivo. Por isso, é muito sério estar atento a outros sintomas de um quadro depressivo como, por exemplo:

  • Mudanças no sono, tanto para mais quanto para menos;
  • Mudanças no apetite e no peso do jovem, tanto para mais quanto para menos;
  • Falas recentes sobre suicídio ou intenções suicidas.

Isso será de muito valor, porque quanto antes você puder perceber que esse adolescente precisa de ajuda, melhor será o prognóstico. Ou seja, maiores são as chances do jovem se recuperar desse quadro de saúde mental.

Outro fator que devemos levar em conta é o isolamento social. Por pior que seja, muitos jovens que acabam por se afastar de amigos, ou que acabam não criando amizades importantes, podem ter quadros de tristeza profunda e ansiedade. E isso tudo pode precipitar a automutilação.

Além disso, outra situação que pode motivar a automutilação é a criação de um quadro de transtorno de personalidade borderline. Ainda, aqui queremos deixar muito claro que a automutilação é uma prática que visa aliviar a dor emocional, mesmo que pareça estranho!

Como identificar um adolescente que se automutila?

A automutilação se manifesta através de cortes, lesões e feridas, feitas com intenção, no próprio corpo. Então, se você começa a notar que um jovem está utilizando roupas um pouco mais longas, mesmo em períodos mais quentes, isso pode dizer que ele está escondendo marcas de machucados no próprio corpo.

E é importante observar se existem cicatrizes nos braços, nos abdômen e até mesmo nas pernas do adolescente. De modo geral, são cortes ou lesões – como escoriações e arranhões -, que o próprio jovem provoca em si mesmo. Então, não são acidentes e nem machucados que outros jovens praticam – como agressões e violência.

Pelo contrário, a automutilação é uma lesão intencional! E o principal fator para você identificar um adolescente que está se automutilando é criar uma sensação de confiança através da conversa.

Então, antes de você ir procurando marcas no corpo do seu filho ou de um amigo seu, comece com uma conversa sincera. Porque uma conversa sincera e genuína pode gerar um resultado muito mais efetivo do que você decidir só procurar algum tipo de marca, sendo invasivo.

A Internet pode influenciar a automutilação na infância e adolescência?

Existem fóruns na internet acessados, de modo geral, por adolescentes, em que eles conversam sobre se machucar e, às vezes, postam fotos das feridas em alguma parte do corpo. No entanto, é difícil saber se esses ambientes estimulam esse tipo de atitude ou se são apenas o único lugar que muitos jovens encontram para falar sobre os seus problemas.

Ainda assim, o certo é que se você descobrir que a criança ou o adolescente estão acessando esses sites, você precisa ficar atento. O ideal seria criar uma situação em que seja possível falar sobre o tema na vida real, com adultos que sabem o que fazer.

Então que tal se informar sobre o assunto para iniciar uma conversa?

Como lidar com a automutilação na infância e adolescência dentro da escola?

Menina triste na escola -  automutilação na escola

A escola é um ambiente em que os problemas e o sofrimento das crianças e dos adolescentes muitas vezes vêm à tona, ainda mais se no ambiente familiar elas não estão recebendo o cuidado adequado.

Nem sempre o autoferimento deixa marcas visíveis, mas, de modo frequente, sim. Por isso, esteja atento para meninos e meninas que estão sempre com algum machucado e usam roupas compridas até mesmo em dias quentes.

Se a automutilação na infância e adolescência ocorrer dentro da escola, como durante a aula ou o intervalo, é importante limpar o ferimento e colocar um curativo. Lide com o comportamento como você lidaria com qualquer outra questão de saúde, ou seja, com respeito e não com tabus e estigma.

Não alimente a ideia de que quem se automutila é “louco” ou “perigoso”. Lembre-se que o jovem apenas está em sofrimento e precisa de ajuda especializada para vencer as dificuldades que está vivendo.

Além disso, a família precisa ser informada sobre o que está acontecendo e que a indicação é procurar um psicólogo. Um psicólogo comportamental vai ajudar a criança ou adolescente a expressar o seu sofrimento de uma forma que não seja se ferindo e a conhecer seus “gatilhos”.

Ou seja, reconhecer o impulso de se machucar e fazer um comportamento alternativo (como segurar gelo, tomar um banho frio, pular corda o mais rápido possível).

Automutilação infantil: como ajudar?

menino triste, dor - automutilação na infância e adolescência

Se você é pai ou cuidador de uma criança que está praticando automutilação, existem três atitudes que você precisa começar a tomar! Elas são atitudes simples que a gente já explorou um pouco nesse texto, então vou passar bem rápido por cada uma delas.

1. Ensinar a criança a se acalmar

Clicando aqui você pode acessar o áudio da respiração diafragmática guiada que a gente gravou aqui na Eurekka. Você pode executar esse áudio com a sua criança e pedir para que, depois do áudio, ela mostre como se faz.

Assim como você pode orientar ela a praticar 5 ou 10 minutos dessa respiração todos os dias. Porque a respiração faz a criança se sentir melhor e, então, a tendência é que ela goste de praticar também.

2. Ensinar a criança a pedir ajuda do jeito certo

Se você percebe que a sua criança tem problemas de comunicação e está se machucando como uma forma de chamar sua atenção para algo que ela precisa, ensine ela como pedir ajuda do jeito certo.

Explique para ela que, quando ela precisar de algo e quiser chamar sua atenção, ela deve fazer isso cutucando você, chamando você pelo celular ou ligando para você etc. Como ela vai fazer isso depende da cultura da sua família e de como funciona a rotina. Mas ela precisa ter claro na cabeça dela que atitude é essa que serve para pedir ajuda.

3. Ensinar a criança a usar objetos cortantes com responsabilidade

E isso serve ainda mais se a sua criança está se cortando por acidente. Porque a atitude certa não é tirar todos os objetos cortantes de perto dela. Na verdade, a atitude certa é tornar essa criança competente para usar objetos cortantes do jeito certo.

Sendo assim, se ela está se cortando com a tesoura, mostre para ela como se usa uma tesoura e deixe que ela use sob a sua supervisão. Já se ela acabou se machucando com uma faca, mostre para ela como se usa uma faca; deixe que ela segure a faca e oriente ela a usar esse objeto.

Automutilação na adolescência: como ajudar?

Se você está querendo ajudar esse jovem, o principal fator que vai levar você a criar essa confiança, será a escuta empática. Mas o que é escuta empática?

Escuta empática para automutilação na adolescência

Trata-se de você sentar e escutar esse adolescente, com toda a atenção do mundo, sem qualquer tipo de pressa ou sem qualquer tipo de compromisso. Dessa forma, você se foca de modo integral no que o outro está dizendo para você.

Pergunte como ele tem se sentido, como é que tem sido a sua rotina nos últimos dias, se tem pensado em morte ou em se machucar etc. Nesse ponto, começamos a falar sobre um tabu que existe na nossa sociedade de que falar sobre automutilação e suicídio incentiva que essas coisas aconteçam.

Mas isso não é verdade! Ao contrário, falar sobre automutilação abre uma porta para que o adolescente fale sobre o seu sofrimento e busque ajuda.

Incentive o adolescente a buscar ajuda

Depois da escuta ativa, a segunda forma de ajudar o adolescente que está se automutilando é você incentivar e ajudar esse jovem a encontrar ajuda especializada. Ou seja, psicólogos e psiquiatras! Esses dois profissionais podem realizar um diagnóstico adequado da situação e entender quais são os motivos que estão levando esse jovem a se automutilar.

Dessa forma, permitindo identificar estratégias para que a automutilação deixe de acontecer e, ainda mais, descobrindo o que está levando essa automutilação a ocorrer.

Tratamentos para automutilação na infância e adolescência

Menino triste tapando o rosto - automutilação na infância e adolescência

O tratamento da automutilação na infância e adolescência é baseado na psicoterapia comportamental.

No caso das crianças, o psicólogo vai participar do processo de ensinar a criança a se acalmar e pedir ajuda de forma correta.

Ou seja, o psicólogo vai analisar em que ambientes a automutilação está acontecendo, perto de quais pessoas, em quais situações. E vai entender a fundo esse fenômeno, para que ele consiga diminuir ao máximo a ocorrência dos machucados.

E é exatamente por isso que, para casos de automutilação nesta faixa etária, a gente recomenda a terapia comportamental. Porque ela foca em entender o comportamento de se cortar: onde ele acontece, como ele acontece e como fazer ele parar.

A psicoterapia também é indicada para adolescentes. Realizada com psicólogos, ela busca identificar quais são os fatores que estão levando à automutilação. Pode ser que seja depressão, desregulação emocional, algum tipo de trauma que esse adolescente enfrentou há pouco tempo ou até o uso de substâncias.

O adolescente será avaliado e poderá dar início ao processo de psicoterapia. No geral, a Terapia Comportamental Dialética – uma das abordagens que é utilizada aqui na Eurekka -, costuma se mostrar bastante efetiva no tratamento da automutilação.

No caso de adolescentes com depressão, também ser indicado um tratamento medicamentoso. Ele deverá ser feito sob o acompanhamento de um psiquiatra, que avaliará qual medicamento poderá auxiliar esse jovem na regulação de suas emoções e na diminuição do seu ímpeto de automutilação. Vale procurar um serviço de psiquiatria da infância e adolescência.

Materiais da Eurekka sobre automutilação na infância e adolescência

sede presencial da Eurekka

Está preocupado com algum caso de automutilação na infância e adolescência? Podemos ajudar.

A Eurekka é uma clínica de psicologia que faz centenas de atendimentos mensais, na modalidade presencial e online também! Ainda assim, todos os dias disponibilizamos, em nossas redes sociais, conteúdo exclusivo e gratuito sobre saúde mental, psicologia e tudo mais que possa te ajudar a viver uma vida melhor.

Curtiu? Para acessar esses conteúdos gratuitos sobre psicologia e saúde emocional, clique na rede social que preferir: Instagram, Facebook e YouTube!

Ainda assim, o melhor tratamento para quem está passando por uma situação difícil e recorreu a esse comportamento é com a ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra.

Isso porque eles podem te ajudar a entender melhor pelo o que você está passando. Além disso, vão te mostrar técnicas e estratégias para lidar melhor com isso e evitar que a automutilação se transforme em tentativas de suicídio.

Então, fique a vontade para marcar uma conversa inicial com um de nossos terapeutas, clicando aqui!

Para completar, veja o vídeo abaixo para entender por que as pessoas se cortam.

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Luiz Eduardo

Luiz é laureado em Psicologia pela UFRGS e terapeuta Comportamental Contextual, atuando como professor da Formação em Terapias Comportamentais Contextuais da Eurekka. É co-fundador da Eurekka, a startup de Psicologia que se tornou a maior rede de psicoterapia do Brasil. Além de fazer milhares de sessões por mês, a Eurekka também oferece telemedicina, um clube de assinatura, franquia para Psicólogos e outros produtos

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